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Em Campo, entrevista com Hick Duarte

Distante dos clichês do brasilcore e de uma estética de exportação formulada pelo olhar estrangeiro sobre o futebol nacional, a essência do esporte e do país pulsa fora dos grandes estádios e do circuito Rio e São Paulo. É essa realidade que o fotógrafo Hick Duarte explora na expedição documental “Em Campo”, que percorre o território brasileiro para registrar a prática futebolística como um ritual de pertencimento, afirmação identitária e resistência coletiva. Pautada pelas trocas afetivas, a iniciativa retrata a juventude em cenários que vão de campos de terra a comunidades quilombolas e ribeirinhas na Amazônia. “Em Campo” se consolida como um manifesto visual pela pluralidade do Brasil: evidenciando a determinação de um povo que segue sonhando e jogando.


Falando sobre o seu processo criativo e a concepção dos seus projetos: de onde surgiu a inspiração para realizar essas viagens de documentação pelo Brasil? Aproveitando o gancho, compartilhe um pouco sobre como foi a experiência com o projeto “Em Campo”.

Esse projeto nasceu há um ano atrás. Eu estava pensando em como documentar futebol de um jeito que fosse diferente do que estava sendo produzido, e ao mesmo tempo, que fizesse sentido com o meu trabalho. A ideia inicial era construir uma documentação que abordasse o território de maneira mais ampla e plural. Queria fugir do que se consolidou como brasilcore, esse conjunto de estereótipos associados ao jovem brasileiro no exterior, mas que está longe de traduzir a complexidade estética e a diversidade do país. Para isso eu precisava, em primeiro lugar, olhar para além do eixo Rio-São Paulo. Então comecei a me conectar com produtores locais em diversas regiões do país, primeiro começando uma busca por campos, para depois chegar aos jogadores, jogadoras e suas histórias. Foi uma experiência muito marcante porque me dispus a chegar em lugares muito especiais, em que as pessoas ainda não tinham sido fotografadas profissionalmente, e onde a prática do esporte era muito importante e muito sagrada, tanto no sentido comunitário como no individual, de afirmação de identidade desses jovens.




Do ponto de vista da fotografia como linguagem de troca, como você enxerga essa relação documental com a temática que escolhe retratar e compartilhar a cada momento?

Desde o início sabia que teria o desafio de fotografar pessoas que talvez nunca tivessem sido fotografadas antes, ou que tivessem determinadas expectativas sobre esse momento. Eu adoro isso, porque essas pessoas trazem consigo uma inocência e despretensão que são muito importantes para o tipo de retrato que procuro fazer. O mais importante é saber como desarmá-las, criar um momento confortável para que ambos deem o seu melhor. E tudo isso num espaço de tempo muito curto, já que a cada jogo tínhamos uma série de pessoas para fotografar. Acho que tem uma coisa muito importante, que é bem subjetiva, que é a forma como você se move e fala com as pessoas. Como você chega, no que você mostra interesse, ouvir mais do que falar, uma série de gestos que não são muito calculados e é até difícil descrever, mas que fazem total diferença nessa relação e têm uma profunda importância no resultado final.




Como se deu o desenvolvimento desse trabalho do início ao fim? Quem foram os parceiros que te acompanharam desde a idealização até a curadoria e a montagem final de uma exposição com tamanha qualidade técnica e de acabamento?

O trabalho foi desenvolvido a muitas mãos, desde a sua conceitualização até a materialização na exposição. Comecei a trocar as primeiras ideias com a Ana Sano, uma grande parceira criativa em tantos outros projetos, ali por meados de agosto do ano passado. Quando esboçamos um itinerário, fiz um chamado no Instagram para mapear produtores pelo Brasil que pudessem me conectar a determinados campos e comunidades. Na Chapada dos Veadeiros, tivemos a colaboração do Marinho, do povoado Moinho, e do Carlos Aroeira, presidente da Associação Quilombola Kalunga; No Pará, foi essencial a participação do Daniel Gutierrez, produtor que nos guiou por Alter do Chão e pela Floresta Nacional do Tapajós; Em Salvador, o produtor Maurício Fontoura; Em São Paulo, David Gomes e Giovani no jogo que fotografamos em Guaianazes, João Morais no jogo da Luz, Matheus Augusto no campo do Taboão da Serra. Para a captação de vídeo, o João Morais esteve comigo em São Paulo, enquanto Pedro Barros e Marcos Azevedo filmaram durante as viagens, além de entrevistar as pessoas. O filme foi editado e finalizado pelo Rafael Marques, mão super importante para o resultado mais atmosférico e sensorial que imaginava para a exposição.

A exposição também tem uma instalação sonora, que foi criada pelo Marcelo Gerab a partir de sons captados durante essas viagens e jogos pelo Brasil. Durante todo esse processo, estive em constante diálogo com o Thiago de Paula Souza, curador que nos guiou em várias decisões expográficas e também assina o nosso texto introdutório ali na Capela Galeria. O projeto de expografia (assim como a sua execução) é assinado pelo Clube, liderado pelo Gabriel Biselli, parceiro fundamental para tirar do papel as nossas ideias e criar um espaço tão legal, convidativo e sofisticado para abrigar o trabalho. O design gráfico é do Sometimes Always, estúdio do grande amigo Gabriel Finotti, que também criou a identidade das minhas outras exposições. E por fim, a Vivo e a Thinkers entraram como parceiras para viabilizar todo o projeto.

Qual foi o sentimento gerado ao concluir esse projeto em um momento que coincidiu com o acompanhamento da jornada da seleção brasileira na Copa do Mundo?

Foi um timing muito particular. Quando fomos visitar a Capela e estávamos falando de cronograma, a gente escolheu o dia 18 de julho, um dia antes da final da Copa, com a intenção de termos tempo para levantar a expografia planejada e ainda estarmos envoltos nesse clima de Copa, para a exposição abrir nessa efervescência. Mas o que a gente não esperava era que o Brasil fosse desclassificado uma semana antes da abertura. Foi complicado porque, para a própria comunicação da exposição, não parecia um bom momento; tinha aquele sentimento amargo da derrota, toda uma insatisfação com a seleção e suas estruturas. Isso nos fez resgatar que o trabalho em sua essência era sobre o futebol brasileiro, e não sobre a Copa. O futebol jogado longe dos grandes estádios, com paixão e muita garra, apesar da escassez, da falta de estrutura de times e clubes espalhados nos quatro cantos do país. A Copa terminava pra gente ali, mas o futebol brasileiro resiste porque ainda ocupa um lugar profundo na vida de quem joga, de quem se reúne ao redor dele. A derrota precoce na Copa tornou ainda mais necessário olhar para esses lugares e entender onde, afinal, esse futebol continua vivo e sendo motivo de felicidade para as pessoas.

A fotografia documental costuma estabelecer fortes laços humanos e geográficos ao se inserir em novas realidades culturais. Diante disso, há alguma pessoa marcante dessa trajetória sobre quem você gostaria de falar?


Esse projeto me proporcionou muitos encontros inesquecíveis. Poderia falar de várias pessoas, mas vou me concentrar em uma. A Dominique é uma menina indígena que fotografamos em Alter do Chão, no Pará, e jogava pelo time feminino do Águia, um clube local. O retrato de Dominique é uma das minhas fotografias favoritas da exposição porque, apesar da simplicidade, revela questões importantes sobre o lugar do futebol feminino no Brasil. Gosto muito da linguagem corporal dela nessa foto, tem um ar de plenitude e graça, apesar da expressão forte, marcada pela pintura indígena no seu rosto. Adoro as cores, o uniforme vermelho, a chuteira rosa, e também a imagem das asas que ocupam as suas costas, na parte de trás da camiseta. Eu a fotografei sentada na grama, assistindo ao jogo e aguardando sua vez de entrar em campo. Hoje, vejo nessa imagem uma metáfora para o futebol feminino, que ainda espera ocupar o lugar de reconhecimento e protagonismo que lhe pertence. Tudo isso ficou ainda mais latente na minha cabeça depois que a entrevistamos, ao final do jogo, quando numa fala emocionada ela disse o quanto é apaixonada por futebol e o quanto é importante continuar jogando e perseguindo esse sonho, apesar dos obstáculos e do espaço que as meninas ainda precisam conquistar.

Pensando nos desdobramentos atuais e nos próximos passos: como você avalia o retorno desse projeto? Existe o plano de continuar explorando o universo do esporte ou alguma das regiões visitadas? Quais são os seus projetos para o futuro próximo?

O projeto Em Campo foi uma grande realização pessoal e profissional, e acredito que foi a minha exposição mais madura até hoje. Quero continuar investigando o universo do futebol, porque acredito que ele é uma lente para falarmos sobre outras questões da juventude brasileira: saúde física e mental, identidade, formação de comunidade, a relação com moda e estilo, o esporte como ferramenta de conexão e pertencimento, os campos como resistência à iniciativa privada e à especulação imobiliária, enfim, essa lista é gigante. Pretendo continuar viajando, fotografar mais e quem sabe lançar um livro desse trabalho. As 63 imagens expostas na exposição são só uma pequena amostra do que captamos ao redor do Brasil. 

Vista da exposição Em Campo, na Capela Galeria. 

Bastidores do projeto.

entrevista por Cássia Tabatini 
fotos exposição por  Marina Lima