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Entrevista para Fort Magazine
Camila Pedroza
por Maria Cecília Ferreira (@mariacissaferreira)

Entre memórias da infância em Natal, o aprendizado com a avó costureira e a convivência com artesãs do Nordeste, Camila Pedroza construiu uma trajetória que une tradição e experimentação. Hoje, à frente de sua marca homônima e em parceria com Helô Rocha no ateliê HR, a estilista investiga o poder do bordado e das técnicas artesanais brasileiras ao lado de materiais inesperados, como metal e correntes. Em entrevista à Fort Magazine, ela compartilha suas referências afetivas, fala sobre a valorização do trabalho coletivo e revela o desejo de reinventar o artesanal no cenário contemporâneo da moda.
MCF: Camila, como começou sua trajetória na moda? Em que momento você percebeu que queria ser estilista? E poderia comentar um pouco sobre os lugares por onde passou e que foram importantes para sua formação enquanto criativa?

CP: Minha avó é costureira e, desde pequena, convivi com tecidos, máquinas de costura e mesas de corte. Assistir ao seu trabalho com linhas de bordado e outras artesanias foi, sem dúvida, meu primeiro contato com o universo manual e artesanal. Em Natal, minha cidade natal, iniciei a faculdade de moda e trabalhei por um ano no setor de modelagem do SEBRAE. Acabei trancando o curso quando surgiu a oportunidade de morar na Austrália, onde vivi durante quatro anos.

Ao retornar ao Brasil, já tinha certeza de que a moda seria o caminho para me reconectar com minha cultura e com tudo aquilo que, um dia, observei minha avó fazendo. Ingressei na faculdade do SENAC Santo Amaro, onde me especializei em modelagem. Ainda no segundo ano, um amigo me convidou para a inauguração da TÊCA, loja de Helô Rocha, também de Natal. Ali tive meu primeiro estágio e, desde então, seguimos juntas no ateliê HR, desenvolvendo vestidos sob medida.

MCF: De onde veio seu interesse pelo artesanato tradicional e pelos materiais nativos do Brasil? O que costuma te guiar na escolha de um material ou técnica? Pensando nas suas experiências até aqui, como você enxerga o lugar do artesanato na moda contemporânea?

CP: Falar sobre artesanato sempre foi algo muito familiar para mim. No Nordeste, diferente de outras regiões do Brasil, a arte popular faz parte da nossa cultura e da nossa ancestralidade. Nunca enxerguei uma toalha de mesa apenas como um objeto de decoração ou item doméstico: para mim, ela já se revelava como uma roupa pronta, e ali meu lado criativo despertava. Achava tudo precioso, as etapas dobordado, os pontos, as linhas, a delicadeza de cada gesto. Ver aquelas mulheres bordando temas ligados ao seu imaginário sempre me emocionou profundamente.

Durante a pandemia, voltei a Natal e comecei a mapear outras formas de artesania. Foi quando percebi a potência e a diversidade do trabalho de artistas populares no Brasil. Passei a visitar essas mulheres, em sua maioria donas de casa que conciliam os cuidados domésticos com a produção artesanal como fonte de renda.

Trazer toda essa riqueza de fibras, fios e técnicas para o meu trabalho como estilista me conecta ainda mais com quem eu sou e me dá um novo entendimento sobre o que significa fazer roupa.

MCF: Como é seu modo de trabalhar? Desde a sua formação, você sente que aprendeu a criar e a pensar com as mãos? Ser estilista, no seu caso, envolve também uma pesquisa profunda com materiais brasileiros que contam a história de uma região, de pessoas e comunidades. Como se dá esse seu processo de escolha, experimentação e criação?

CP: Confesso que tenho um amor sem fim pela área têxtil, pela construção do tecido e pela forma como ele se transforma em roupa. Sempre achei esse processo quase mágico. Minhas pesquisas começam pelo tecido em si, pela matéria-prima. A partir dele consigo enxergar o caminho da construção da peça: as texturas, o caimento, as possibilidades.

Como o trabalho artesanal faz parte da minha cultura nordestina, sempre tive muito contato com as artesãs, que considero as verdadeiras artistas. Muitas rendeiras trabalham em casa, e eu costumava ir até elas. Passávamos horas juntas, criando temas para os bordados, testando novos tecidos e fios que não estavam habituadas a usar. Esse espaço se tornava um verdadeiro laboratório criativo, repleto de histórias, trocas e aprendizados.

MCF: Observando suas produções, especialmente nas colaborações com a Helô Rocha, sua sócia, percebo muitas influências românticas e históricas: os bordados, as rendas, o uso do espartilho para estruturar e contornar o corpo, elementos que
fazem parte de uma gramática clássica do feminino. Como você enxerga essa reinvenção dessas referências a partir da pesquisa com materiais brasileiros e outras formas plásticas?

CP: Tive o privilégio de conviver com muitas mulheres, e tudo que envolvia o ritual feminino sempre me fascinou. A roupa, para mim, é um código de vestimenta e também um posicionamento político. Usar referências de outras épocas e conseguir trazê-las de forma contemporânea sempre fez parte da mensagem que busco transmitir.É muito interessante observar o tempo das coisas, como tudo se renova e como nós também nos transformamos. É como se, ao vestir determinada peça, fosse possível acessar uma força especial, quase como ter superpoderes.

MCF: Seu trabalho tem um caráter fortemente colaborativo, o que é muito potente em um tempo em que o individualismo e a autoria são tão valorizados. Como foi esse encontro com a Helô Rocha e como vocês construíram essa parceria? E como se dá esse processo de escuta e troca com as mestras e mestres artesãos com quem vocês trabalham, pessoas que dominam materiais carregados de história?

CP: Quando comecei a trabalhar com Helô, senti que era como uma extensão da minha própria casa. Conversávamos sobre nossa infância, os paninhos bordados em Richelieu, ponto cruz, crochê, os caranguejos que comíamos e a carne de sol com feijão verde. De repente, tudo passou a fazer mais sentido para mim. Foi como encontrar alguém que sonhava junto comigo e compreendia a minha forma de pensar.

Trazer nossa cultura do bordado, falar sobre as pessoas que colaboram para que cada etapa da produção aconteça e lutar pela valorização do artesanal e de tudo que envolve esse trabalho também nasce dessa conexão. Muito desse lugar romântico vem das vivências e recordações que guardo, e encontrar a Helô nesse percurso me conecta ainda mais a esse passado.

MCF: Agora, com a criação da sua nova marca, CAMILA PEDROZA, de onde surgiu esse desejo de empreender um projeto próprio? O que você quer trazer com essa nova fase mais autoral? O que vai definir sua assinatura e seus desejos em termos de costura e estilo?

CP: Criar minha própria marca reflete muito do meu olhar para os novos tempos. Quero dialogar com uma moda mais urbana, experimental e cheia de possibilidades, sem perder de vista a sobrevivência dos processos manuais. Também é sobre o trabalho coletivo, sobre os encontros que vão surgindo ao longo da vida e as inúmeras possibilidades que se abrem nesse caminhar.

Tenho uma curiosidade constante de olhar o mundo como matéria-prima. Interessa-me misturar o que já existe com o que ainda não foi tentado. Busco unir técnicas tradicionais, vindas das minhas referências no bordado, nas linhas e nos tecidos, a processos mais inovadores, deixando que o tecido e o fio dialoguem com o metal, o calor e o tempo de cada processo. Sinto que cada material me propõe uma pergunta.

MCF: Você já tem uma pesquisa ou um conceito definido, ou ainda está experimentando possibilidades, como a escolha de um material específico ou uma ideia que deseja aprofundar?

CP: Essa coleção nasceu de alguns anos de pesquisa, em que testei materiais como metal, jeans, fios de algodão resinados, sublimação e foil, até chegar a um ponto de esgotamento de técnicas. Foi nesse momento que o processo criativo se tornou muito mais livre, experimental e disruptivo.

Há também muito do meu olhar para a joalheria, que é uma paixão antiga, mas não aquela joalheria convencional. Existe algo de inquieto no meu processo criativo, uma necessidade de tirar as coisas do lugar comum. Gosto de fuçar em lojas de material de construção, experimentar correntes, brocas, pregos, parafusos, enfim, tudo que é mais bruto.

MCF: Algumas peças da nova marca parecem explorar o sensual, mas sempre mantendo um olhar feminino e experimental sobre os materiais. Essa nova produção também pretende ser artesanal, respeitando seu ritmo criativo, com peças exclusivas e de tiragem limitada?

CP: A ideia é lançar os drops de forma bem orgânica, destrinchando a coleção em famílias comerciais. Quero focar bastante em acessórios e adornos de corpo, sempre com um caráter híbrido e funcional.

O jeans, o silk, os resíduos têxteis, o tressê, o macramê, o crochê, o tricô, o metal, as correntes e o bordado são muito sedutores quando aplicados de maneira inusitada e livre. Esse encontro de técnicas e materiais acaba se transformando em uma verdadeira explosão de ideias.