
Minha introdução ao teatro foi bastante despretensiosa. Nunca existiu a ideia de que eu me tornaria uma atriz mirim ou de que essa ocupação seria um trabalho, algo que gerasse dinheiro. Era simplesmente mais uma atividade entre tantas outras que eu fazia na infância. E, quando percebi, eu estava apaixonada. Me apaixonei profundamente e nunca mais quis sair. Entrei com 9 anos e só saí de lá com quase 17.
Aquele espaço e aquelas pessoas representaram um acolhimento fundamental para mim naquele momento da vida. Era um lugar onde eu podia experimentar ser uma criança e adolescente livre, protegida pelo teatro e por quem fazia parte dele. Fora dali, a realidade era outra — especialmente sendo uma menina negra. Ali, eu podia simplesmente viver, criar, sem vergonha ou medo. Foi o lugar onde superei minha timidez, que sempre aparecia fora do palco.
O Centro Cultural Monte Azul é um verdadeiro oásis. Às vezes, parecia que eu nem estava em São Paulo, era um lugar mágico, onde relações frutíferas e trabalhos belíssimos aconteciam. Foi lá que conheci o trabalho de grandes companhias teatrais paulistas que se tornaram minhas referências. Era um espaço muito respeitado pelos grupos, e, mesmo sem ter contatos externos no mundo das artes cênicas, eu via essas pessoas lá dentro, trabalhávamos para recebê-las. Isso me deu uma perspectiva concreta sobre o que é fazer teatro, viver disso. O Monte Azul é um espaço transformador, com uma pedagogia eficaz e uma política profundamente respeitosa. Mudou a minha vida — e continua mudando a de muita gente.

A decisão de estudar na UNESP veio do desejo de cursar Artes Cênicas em uma universidade pública. Minha mãe sempre quis que eu fizesse faculdade pública, e quando passei no vestibular com uma boa nota, percebi que aquilo também seria importante para mim.
Durante muito tempo, tive medo de ser invalidada, de acharem que eu não levava a carreira a sério, como se fosse só uma brincadeira. O diploma traz um peso, uma seriedade que ainda é muito reconhecida. A universidade, apesar de não ser o único nem necessariamente o melhor lugar para aprender teatro, é um espaço de experimentação, de contato com obras, professores, colegas — um grande catalisador. Foi também uma lição de autoestima intelectual, algo que me era e ainda é muito caro. Ter essa bagagem acadêmica me deu confiança e respeito, inclusive no mercado.
A relação com o Teatro Oficina entra aí. A universidade pública também me ensinou o valor político de ser artista — pensar o papel do artista como alguém que deve algo à sociedade, que se implica, que observa e reflete seu tempo. O Oficina faz isso com excelência: está há mais de seis décadas em movimento, implicado em questões políticas, com uma filosofia de multidão, criação coletiva e comunicação ampla. Isso ressoou muito com o que aprendi na universidade, inclusive durante greves e paralisações, que me ensinaram mais do que muitas aulas. Essas duas formações dialogam profundamente na minha trajetória.


Na Quebrada me apresentou ao audiovisual — ao trabalho, ao set, ao pagamento. Eu não sabia que isso existia como possibilidade para mim. Era só uma adolescente que fazia teatro por paixão, achando que viver disso era um sonho distante. E de repente lá estava eu, aprendendo com profissionais incríveis sobre como funciona uma agência, como fazer testes, como me portar no set. Coisas básicas, mas essenciais, que nem todo mundo tem acesso.
Depois disso, vieram trabalhos menores em termos de tempo de cena, mas grandes em aprendizado. Mesmo nos papéis breves, fui entendendo como as pessoas me viam, como eu me posicionava nos espaços. Vivi desconfortos, violências, silenciamentos, mas também generosidades. Isso tudo me ensinou como quero — e como não quero — trabalhar. Aprendi com quem quero estar, e como me preparar para estar pronta.
E aí veio Levante. E eu estava pronta. Passei anos me preparando para aquele momento. Foi um trabalho que tinha tudo o que sempre desejei: propósito, competência, direção forte, uma luta com a qual me identifico profundamente. Tive a sorte de ter uma primeira protagonista em um projeto tão bom. E gosto da ideia de sorte. Acho que tenho sorte — e estou sempre me preparando para quando ela me encontrar.


Essa relação com o nome é longa. Durante muito tempo, eu não compreendia a beleza do meu próprio nome. Ayomi é um nome iorubá, muito bonito, mas eu não
sabia nem pronunciá-lo direito. Não tinha o orgulho que tenho hoje. Escolhi usar Domênica Dias por razões que hoje percebo serem atravessadas pelo racismo — por um desejo de “facilitar”, de não parecer diferente.
Com o tempo e com uma formação mais consciente, percebi que o sobrenome não significava nada para mim no Brasil. Fui muito inspirada pelo meu irmão, que também retomou seu primeiro nome e deixou de usar o primeiro sobrenome. Essa mudança trouxe um axé enorme para minha carreira. Levante foi o primeiro trabalho que assinei como Ayomi Domênica — e os efeitos disso foram imediatos.
Hoje me sinto plena ao dizer meu nome. Me sinto eu. Me dá confiança, orgulho e beleza. E vejo que as pessoas também recebem esse nome com carinho e admiração.
Enxergo meu papel no audiovisual como uma representação da dignidade. É mais uma forma de dar voz, de construir imaginários, sonhos, histórias e também legados. A arte mexe com o emocional, com o subconsciente — e isso molda o coletivo. O que a gente vê na tela vira parte da memória do mundo.
Desejo que as próximas gerações, ao me verem ou verem pessoas como eu, sintam alegria. Que nossa imagem represente algo bonito, potente, realizador.


Qualquer personagem com quem eu estiver em contato precisa ter profundidade ecomplexidade — é isso que torna as pessoas e as personagens humanas. Eu
busco criar ficções possíveis, prezando sempre pela beleza, pela sensibilidade, pela graça e, sobretudo, pela humanização. E, acima de tudo, pelo direito de errar. É importante que as personagens possam inspirar, claro, mas também que a gente veja nelas a possibilidade da queda, do tropeço, da falha — e da volta por cima. Cair e levantar. Isso é o que nos torna reais, acessíveis. A cada projeto, eu sinto que estou sim tateando novos caminhos, abrindo espaço onde antes não havia. É um exercício contínuo de escuta e invenção. Me inspiro em muita gente, mas entendo que também estou criando uma metodologia própria, a partir da intuição e da prática.
Nenhuma história, nenhum personagem é exatamente uma pessoa. Mas qualquer pessoa pode ter algum cruzamento com qualquer história. Pra mim, tudo parte do encontro — da aproximação e da empatia. A gente tem a obrigação de contar essas histórias com sensibilidade, mesmo que sejam personagens que façam coisas horríveis, que representem traços cruéis da sociedade, sintomas graves. Porque as pessoas precisam se enxergar também nesses personagens, mesmo nos que fazem o que a gente abomina. Isso só acontece pela emoção e pela empatia. É por aí que a gente se conecta. E é aí que entra o nosso papel social enquanto artistas: tornar visível o que está nas sombras, humanizar o que parece impossível, dar complexidade ao que é reduzido a estereótipos. É um trabalho difícil, mas necessário.

Eu espero, de verdade, que a presença de pessoas negras, periféricas e dissidentes no audiovisual não seja mais vista como moda ou estratégia de marketing. Essas pessoas existem. Elas têm o direito de contar suas histórias com dignidade, de se ver e de serem vistas. A representação é uma forma de existir com dignidade. É sobre poder sonhar e realizar. O audiovisual tem um alcance imenso — diferente do teatro, que é ao vivo e efêmero, o que é feito no cinema e na televisão permanece, constrói imaginários, significados, identidades. Pode construir ou destruir autoestima, subjetividades, sociedades inteiras. Então, minha esperança é que a gente construa um futuro em que esses corpos não sejam mais exceção, mas parte do todo. Contar histórias com respeito significa reparação. Representar com verdade é dignidade. E é isso que eu quero continuar ajudando a fazer.