
O coletivo do Artesanato Chave começou em 2020, através do Matheus, do Diego, do Victor e do Rafael. Surgindo para a valorização dos bonés de crochê, quebrar o preconceito que todos tinham, quando viam um jovem usando os bonés, as pessoas já falavam que era artigo de preso e que essa pessoa tinha acabado de sair da penitenciária. Os policiais rasgavam os bonés. Então, o coletivo surgiu com força na internet e, hoje, no coletivo, somos quatro: Rafael Estevão (@rafael_croche), Diego Henrique (@artedomagroofc), Matheus Igor ( @semnomeatelie ) e Rafael Fios @croche.777.
Essa técnica surgiu por conta de sua natureza ancestral, um saber milenar que atravessa gerações. No meu caminho pessoal, o fazer manual se revelou durante o período de cárcere, quando compreendi que os pontos iam além da estética; eram uma ferramenta terapêutica vital. Através das agulhas, consegui encontrar um refúgio mental para silenciar os pensamentos sobre as adversidades que eu tinha feito, nos meus erros, pois eu afastei a minha família de mim, enquanto eu estava no cárcere e com o crochê eu pude usar a minha criatividade pra poder me expressar ali, fazer um desenho, fazer um tapete, fazer um boné. No crochê, eu pude ver que essa técnica poderia me transformar como pessoa. Até um agente penitenciário elogiava o meu trabalho porque era diferenciado. Quando eu ganhei a liberdade e conheci a galera do Artesanato Chave, unimos nossas ideias e montamos o coletivo. Todos eles já tinham a sua história de superação com o crochê. O Diego aprendeu também dentro do cárcere através de uma linha de reciclagem, desmanchando uma blusa e fazendo seu primeiro boné. O Matheus aprendeu com um familiar, e ao mesmo tempo estamos quebrando o preconceito de que crochê é algo para mulheres e muito mais do que uma linha e uma agulha. Então o Artesanato Chave usa a técnica do crochê para se expressar e contar a verdadeira história. No caso do Rafael Fios, ele é cantor de funk e, no baile, ele viu um parceiro usando o boné de crochê e surgiu a curiosidade de criar o seu. Ele mesmo também tem dois amigos que aprenderam crochê na prisão, aprendendo então com esses amigos e com vídeos na internet. Hoje todos nós usamos essa técnica em cenografias, moda e artigos diversos.


Podemos ver o nosso trabalho, que é um artesanato, sendo valorizado e sendo visto como arte e entrando no mundo da moda. O crochê nos dias de hoje está em alta; ele é criatividade.Podemos estar fazendo exposições no Sesc, oficinas de bonés de crochê em espaços culturais; fizemos publicidade para o Pinterest, que é uma das maiores plataformas de referências, fizemos um grande cenário de crochê , uma maquete de gatos e outra miniatura com temática branca, e a gente se tornou referência dentro dessa plataforma. É muito gratificante, pois o artesanato é algo que a gente, em 2020, sempre falou que era valorizar o artesão e o artesanato.
Nós do artesanato produzimos uma coleção e tentamos não reproduzi-la; sempre tá vindo com uma estética nova, uma ideia nova , então procuramos não estar repetindo, a não ser que apareçam demandas.


Nós mesmos, não temos assessoria ou agente. Quando o projeto vem para o Rafael Estevão, ele administra; quando vem o Sesc, normalmente o Diego administra; quando são desfiles , fica para o Matheus; vamos administrando e correndo atrás dos nossos progressos.
O futuro do Artesanato Chave é a expansão das nossas oficinas, ocupando o cotidiano de jovens em comunidades e escolas públicas com o aprendizado de bonés, vestuário e tapeçaria. Nosso intuito é que crianças e adolescentes dediquem menos tempo às telas e mais ao fazer manual, permitindo que cresçam como artistas, assim como nós, que somos artistas visuais periféricos. Muitas vezes, o sonho desses jovens se restringe ao futebol ou ao funk, pois é o que a mídia destaca; eles não enxergam o artista têxtil, o grafiteiro ou o fotógrafo de paisagens e artesanato como referências possíveis. Queremos ser essa inspiração no universo do feito à mão. Em uma era dominada pela tecnologia e inteligência artificial, o Artesanato Chave busca resgatar a essência do "faça você mesmo", incentivando as novas gerações a redescobrir o valor de criar com as próprias mãos.

