0
R$ 0,00 0 item

Nenhum produto no carrinho.

Holly Wood para Fort Magazine
Por Maria Cecília Ferreira (@mariacissaferreira)


A inglesa Holly Wood (@hollyblowslightly) construiu uma trajetória que atravessa moda, pesquisa e direção criativa. Estudou Fashion Management and Design pela University of East London e em Design Development pela University of the Arts, ela passou por diferentes espaços de aprendizado e trabalho, entre passarelas, bastidores e bares de Londres.

Depois de anos conciliando estudos, freelas e trabalhos noturnos, Holly percebeu que seu ritmo de vida girava em torno do dinheiro e do esforço para sobreviver. Foi quando decidiu se afastar e buscar outros modos de criar e de estar no mundo. Essa busca a levou à Tailândia e, em seguida, ao Brasil, onde vive há dois anos.

Em São Paulo, ela prepara a abertura do Archive13, um acervo de roupas de grandes designers que começa a funcionar em novembro, na Barra Funda. Pensado para stylists e criadores, o espaço amplia seu trabalho de pesquisa e propõe novas formas de circulação da moda no Brasil.

Nesse bate-papo, Holly fala sobre como transforma o cotidiano em experimentação estética. Em sua trajetória, moda e pesquisa se confundem com a própria vida, um exercício constante de observar, criar e recomeçar. Em entrevista para a Fort Magazine, acompanhe a imersão na vida íntima e no universo criativo da stylist Holly Wood.

Gloves: Larner13
Coat: Camden Leathers
Corset: Miaou
Belt: Gucci
Boots: Rick Owens

1. Holly, você parece ser uma pessoa naturalmente criativa, alguém que transita com facilidade entre diferentes formas de arte e expressão. Em que momento você percebeu que a criatividade se tornaria o centro da sua vida?

Sinceramente, foi por causa da minha avó. Ela é artista e calígrafa. Mas o fato de eu me voltar para a criatividade não se deve apenas a ter crescido cercada pelas pessoas, lugares e práticas a que ela me expôs. Foi por ela ser quem é. Ela transformava tudo em algo criativo e divertido, tudo era uma história sem fim, e ela nunca dava explicações muito preto no branco. Tudo era colorido e, geralmente, um pouco delirante, no melhor sentido. Fui definitivamente criada para dizer “e se?” mais do que “por quê?”.

Mask by: House Of Harlot
Latex top: Elissa Poppy
Dress: Molly Goddard
Sunglasses: Maison Margiela

2. Você estudou Fashion Management and Design na University of East London e depois Design Development na University of the Arts. O que essas experiências representaram para você? Como influenciaram a maneira como você entende a moda e a criatividade?

Na verdade, tudo parece um borrão. Aquilo deveria ter me ensinado muito mais estrutura, algo que acho que só veio mais tarde, quando passei a aprender para os outros e não apenas para mim. Eu me preocupava muito em agradar os outros e menos a mim mesma, então a escola sempre ficava em segundo plano, atrás dos estágios, dos trabalhos e de muita festa.

Naquela época eu precisava trabalhar para comer, para conseguir terminar os estudos, então minha correria pessoal e o contato com tantas pessoas diferentes moldaram completamente a minha criatividade. Eu trabalhava em boates e bares, além dos papéis na moda e na faculdade. Podia passar a manhã devolvendo peças de um ensaio, à tarde assistindo a uma palestra de um especialista da equipe do Alexander McQueen, sentada ao lado de um estudante cujo pai talvez tivesse uma fábrica de roupas, e à noite servindo coquetéis cercada por drag queens e playboy bunnies, para na manhã seguinte ajudar em provas de roupa para gente como Panos Yiapanis.

Eu estava criando um mundo muito acelerado para viver, o que me ensinou a ser rápida, fluida e a manter minha criatividade em constante movimento, cercada por múltiplas personalidades e personagens. Esse período da minha vida tornou muito fácil e prazeroso criar personagens e papéis. Eu quero conhecê-los, quero ser amiga deles.

Hat: Vintage
Top: Jean Paul Gaultier
Shorts: Rick Owens
Gloves: Oakley

Dress: 16Arlington
Gloves: Larner13
Boots: Fendi
Leg warmers: Larner13

3. Como foi crescer e se desenvolver artisticamente em um ambiente tão cosmopolita como o Reino Unido?

É difícil dizer, não tenho muito com o que comparar. Mas posso dizer que fui muito sortuda por crescer em um lugar onde, em 25 minutos, eu podia estar correndo por campos com cavalos ou em uma cidade tão diversa e acelerada como Londres.

4. Houve um momento em que você sentiu necessidade de desacelerar para se reconectar com a sua própria criatividade?

Com certeza, mil por cento. Foi assim, inclusive, que acabei vindo parar no Brasil. Cheguei a um ponto em que sentia que minha vida girava em torno de um contracheque. Tive um colapso completo, mental e físico.

Precisei sair. Decidi ir para a Tailândia fazer um retiro de yoga, que no fim nunca aconteceu. Isso foi há três anos. A história com o Brasil começou quando voltei a Londres para desfazer meu antigo apartamento e assistir ao casamento da minha melhor amiga antes de voltar para a Tailândia. Trabalhei em um projeto com Eduardo Sá e Kao, dois paulistas que, às três da manhã, em uma festa pós-gravação, me convenceram a visitar o Brasil antes de ir para a Tailândia. Estou aqui há dois anos desde então. Nunca fui muito boa em seguir planos.

5. De que forma viver fora de Londres, primeiro na Tailândia e depois no Brasil, mudou a sua maneira de lidar com a inspiração e o
trabalho criativo?

Na real, não sei se os lugares mudaram minha abordagem ou se mudaram a mim e à minha mentalidade sobre o que quero do trabalho.

Antes eu era muito focada em ganhar dinheiro. Nunca tive, e quando comecei a ter, era tudo o que eu queria. Agora, quero aceitar projetos porque quero viver no mundo daquele projeto, e não no mundo que o pagamento dele me proporciona.

Fur stole: Vintage
Top: Our Legacy
Skirt: Raf Simons
Boots: Marc Jacobs

Full look: Vintage

6. Você comentou que o styling entrou na sua vida por acaso, mas que a pesquisa sempre foi sua verdadeira paixão. Como essas
duas áreas se relacionam no seu trabalho hoje?

Toda a minha formação oficial foi em design de moda. Também passei alguns anos no setor de buying, mas eu levava o mundo da moda muito a sério. Trabalhava de graça, o tempo todo, com qualquer um que me aceitasse.

Mas quando se trata de styling e pesquisa, um não existe sem o outro. Criar um mundo delirante para designers ou equipes de beleza viverem, sem limites, mas ainda pertencendo àquele universo, é tudo. Desenvolver o personagem de um artista é um processo de pesquisa: ele pode precisar passar por transições ao longo da carreira, e você precisa crescer e evoluir junto, garantindo que é capaz de criar uma referência visual que defina o quanto ele quer ser acessível ou poderoso. É tudo pesquisa, e o styling é o produto final.

7. Você está criando seu próprio acervo, o Archive13, e desenvolvendo projetos pessoais que envolvem moda, cinema e
escrita. O que une todas essas áreas no seu processo criativo?

Acho que, sinceramente, o que conecta tudo sou eu. Meus projetos são mundos tão diferentes, e eu não fico parada por muito tempo. Ir de um projeto para outro, do caos ao caos, mantém minhas ideias vivas.

Acabo começando muitas coisas e precisando voltar depois. Preciso sentir falta dos mundos em que vivo para voltar a eles empolgada, com novas ideias e entusiasmo. Acho que todo criativo entende isso, certo? Mas sim, meu Archive13 é agora o meu grande projeto no Brasil. Vi como o styling funciona aqui e como depende tanto de acervos, e realmente acho que isso vai ser muito empolgante.

Top corset: Victorian vintage men’s corset
Skirt corset: Vintage
Sleeves: Artisan

Jacket: Mowalola
Shorts: Rick Owens
Belts: Stylist Kit

8. Agora que está morando no Brasil, como tem sido essa experiência? Como foi entrar no mercado criativo daqui e o que mais
te chama atenção na cena brasileira?

Tem sido incrível. As pessoas são tudo e mais um pouco. Achei impressionante o quão próximos os criativos são aqui em São Paulo. Parece que
ninguém se conhece, mas, na verdade, todo mundo se conhece.

Ainda não tive tanta experiência quanto gostaria no mercado criativo e continuo trabalhando também fora do Brasil, mas tive a sorte de atender clientes que vêm dos Estados Unidos para fazer shoots aqui, e os comentários são sempre os mesmos: sobre a potência das pessoas.

Quero destacar o quanto respeito os stylists no Brasil. Antes eu não valorizava a simplicidade de ter acesso a entregas rápidas e a marcas. Aqui isso é um pesadelo. Os stylists brasileiros são super criativos e engenhosos para criar com o que têm.

Eu sou aquela garota bêbada que fica emocionada no canto das festas porque uma menina que conheci no banheiro há cinco minutos teve que pagar 70% de imposto de importação pelas botas Kiki da Marc Jacobs.la ga

Mas, voltando ao motivo pelo qual quis montar um acervo aqui, realmente espero crescer e expandir meu trabalho junto dos stylists brasileiros, ajudando a encontrar as peças certas para o Brasil. Meu objetivo é ser uma sommelier de roupas.

Dress: Vivienne Westwood
Scarf: Fenda
Hat: Chicago Skate Shop

Top: Dior
Earmuff: Chanel
Trousers: Vintage
Boots: New Rock

9. Quais projetos têm te inspirado no momento? O que mais te motiva criativamente hoje?

Atualmente, estou trabalhando em alguns projetos pessoais que não poderiam ser mais diferentes entre si.

Um deles é baseado em crime, um tipo de thriller psicológico, com um conceito que mistura documentário, cinema e moda, um mundo em que você nunca sabe o que é verdade e o que não é.

O outro se chama Beasts, que espero transformar em um livro. Acabamos de completar nosso primeiro filme, que é muito mágico, teatral, estranho, e tem muitas ligações com animais e suas propriedades de cura.

E, claro, meu acervo de roupas, o Archive13, que será inaugurado em novembro, em São Paulo.

Dress: Galliano
Corset: Mugler
Fur: Vintage

Gloves: Miu Miu
Trousers: Vintage
Boots: New Rock

Stylist & Creative director: Holly Wood
Styling assistants: Joao Beltran @joao.beltran
Luke Hauckmann @lukehauckmann

Photographer: Desacato @desacato.pm
Lighting: Ana Santos @sempestana
Video: Eduardo Nunes @papodipokas
Collage edits: Acid @acid.vk

Beauty artist: João Casatti @joaocasatti 
Beauty assistant: Kinno @bykinno
Kelendria William @kelly_thestylist

Model agent Roberto Izidio @robertozidio
Models: Berta Bawar @felisbertagomes
Victoria Lehmann @victoria_lehmann
Gaia @gaiarudmyla
Victória Cavallaro @victoriacavallaro