
O terceiro evento da OtherNetwork em São Paulo aconteceu no dia 11 de outubro de 2025, no Esponja. Com roupas e fotografias analógicas de ícones da cultura nacional, como Claudia Liz, Camila Pitanga, Geanine Marques e Marina Lima, no espaço expositivo, e desfile ao som de Baile de peruas editado por Lu Mugayar e Matheus dos Reis que envolveu os visitantes, inaugurado por Mafalda e encerrado por Dudu Bertholini e Bianca Exótica.
O cardápio, inspirado na banda NoPorn, foi assinado pelo chef Gabriel Carvalho (Ary Comidas). Do time da Fort Magazine, a fundadora da revista, Cassia Tabatini, e Matheus dos Reis, Editor de pesquisa e embaixador da ON no Brasil, assinaram a documentação e a curadoria do projeto. Leia o texto escrito por Dos Reis.


PRECISO DAR UM DESTINO PRAS PEÇAS. PODE SER AMOR.
“Algum dia, tudo isso precisará ser revelado, cuidadosamente impresso, ajustado.” Christopher Isherwood, Goodbye to Berlin,1939
“We don´t need to fit, in your fixed trip. We don´t need a clique, to make our clock tick.” Deee-lite, World Clique, 1990
“Novinha, você tem acervo?” Bianca Exótica com jaqueta de Jean-Charles de Castelbajac, presente de FKAWALLYS.
Foi num almoço em 2018, no apartamento do casal Liana Padilha e Lucas Freire, na Barra Funda, que conheci a história da Sucumbe à Cólera. Entre pratos e conversas, enquanto Liana soltava frases marcantes como “você sempre prefere ser chique, eu não vou brigar com uma pessoa por causa de Uber”, e trocava afetos com Lucas, ambos com aquela presença rara de mesa (sem checar o celular freneticamente), ela abriu caixas de passado, criação e de memórias. Caixas com o arquivo da Sucumbe que ela trazia consigo de vários lugares há décadas.

A Sucumbe à Cólera foi uma marca de moda criada no início dos anos 1990 por Liana e seu então parceiro amoroso e criativo, o gaúcho-carioca Regis Fadel. A marca de vanguarda, projeto independente da dupla, mostrava em coleções de médio porte, looks que iam de encontro a moda clubber que marcou os anos 90: futuristas, bem humorados, revisitando as décadas de 60 e 70, os movimentos “faça você mesmo” e o punk. Com estética ousada, política e provocadora, a SAC desfilou em instituições como o MuBE (Museu Brasileiro da Escultura) e o Phytoervas Fashion, que antecedeu o SPFW (São Paulo Fashion Week) e outros eventos que já não existem mais no calendário, como o Fashion Rio.


Liana nos mostrou tudo: desenhos, roupas que provamos entre risos e exclamações, fotos de desfiles e arquivo de imprensa. Entre os nomes que passaram pela marca, aparecem nas fotos analógicas de passarela e campanha uma jovem Camila Pitanga - a cantora Marina Lima performando como uma dominatrix, e Gisele Bündchen vestindo SAC em um editorial nos primórdios da carreira. A independência da marca contou com muitas parcerias afetivas. “Eu só consigo sentir tesão por pessoas que são criativas e que gostam de trabalhar a sua criatividade.”

Em meio à efervescência cultural dos anos 1990 — marcada por grandes nomes da moda brasileira, mas também por estigmas e silêncios em torno do HIV — Liana e Régis fizeram da criação um território de potência e humor. A Sucumbe à Cólera, junto a projetos de arte, mobiliário e música, acompanhou os dois até o último suspiro: Régis em 2000; E Liana seguiu, ao lado de Lucas Freire, com o projeto Noporn, até sua passagem. Embora a banda ecoe como um mantra atravessando gerações, poucos entre os mais jovens conheceram ou sequer ouviram falar da existência da Sucumbe. Naquele almoço que virou jantar, ela propôs: “Alguma coisa eu quero fazer com esse passado que venho carregando. Talvez um desfile, uma exposição. Ou doar o acervo para alguma instituição. É o nosso projeto fashion.” A missão foi aceita com muita emoção. O título deste texto, extraído das trocas de áudio de Liana, com sua fala sensual-pausa-deboche-cariomixada: “Querido, eu preciso dar um destino pras peças.” No que respondi: “Pode ser, amor.” Rimos. Há realmente uma excitação quase sagrada nesse encontro com quem sente prazer no ato de pensar, criar. Criar junto.


Assim como a trajetória desses artistas, esta exposição de um dia só foi possível graças àparceria generosa de amores da Liana. O Lucas Freire trouxe o arquivo da SAC para o Esponja(um espaço que ela amava), palco da mostra e do desfile, cedido por Luis Kinihs e Yusuf. Mais de 30 anos depois, é assim que projetos continuam a acontecer: somando resistência, afeto e desejo coletivo. Num país que ainda não possui um museu dedicado à moda - apesar de tantos nomes emblemáticos, do passado e do presente - ter contato com esse tipo de produção é também um gesto de admiração, um convite à escuta, à inspiração. Trata-se de reconhecer e aprender com forças criativas que transformaram o modo de fazer roupas, música e festas. É quase sempre retornando à história desses heróis subversivos que encontramos a energia necessária para recriar e fazer com que as áreas criativas coexistam,
em novos formatos, em novas potências. Que assim seja com o arquivo da Sucumbe à Cólera — agora fora das caixas, pulsando, ao som de Baile de Peruas, do Noporn, no Esponja. De novo. De novo. De novo. - Matheus dos Reis