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Agazero e o processo por trás de “Dissidente”

O produtor de São Gonçalo fala sobre a construção do EP, suas múltiplas personas e a experiência de ocupar o catálogo da Halcyon Veil.

Dissidência é, antes de tudo, um gesto de ruptura. A escolha de seguir um caminho próprio, mesmo quando ele desafia estruturas, expectativas ou convenções. É dessa ideia que parte “Dissidente”, novo EP de Eric Alves sob o projeto Agazero, lançado pela Halcyon Veil. Ao longo de seis faixas, com colaborações de KARAN!, Yandrel, Iguana e SEXCORP., o produtor carioca desenvolve uma linguagem que atravessa diferentes referências sonoras sem se prender a nenhuma delas, reafirmando uma trajetória marcada pela pesquisa e experimentação

Na conversa com Terapia, Eric fala sobre o processo de construção do EP, a relação entre seus diferentes projetos, o impacto de São Paulo na sua trajetória criativa e as conexões que deram forma ao lançamento, das colaborações musicais à parceria com a Halcyon Veil. Entre memórias, internet, criação e pertencimento, a entrevista revela um pouco da forma como o artista organiza suas ideias e enxerga o próprio trabalho.

Para começar, queria que você se apresentasse: quem é o Eric, quem é o Agazero, de onde você vem e como costuma explicar esse universo para quem está chegando agora?

Eu acho que definir subjetividades hoje é complexo, mas, se for pra explicar, eu acho que o Eric é o humano na parada ali. Ele é o cara normal, uma força de trabalho concreta. É um corpo negro, vem de São Gonçalo. Até hoje eu opero naquela coisa da infraestrutura de TI, muito nessa dinâmica de hackear a acumulação primitiva de privilégio usando a minha força de trabalho, né, claro. Mas eu acho que é um lance de subsistência, tá ligado?

Tem essa brisa de sentir a fricção psicogeográfica de ser esmagado numa estação da Sé na hora do rush. Inclusive, hoje mesmo eu fui esmagado voltando pra casa. Então, acho que esse é o Eric: essa pessoa comum, assim como qualquer outro cidadão brasileiro. Já o Agazero, eu acho que ele nem existe como uma entidade real. É mais um simulacro, uma das sete personas. Antigamente eu gostava muito de explicar tudo em detalhes, o que significava cada coisa, mas hoje não tenho muito o que explicar. No final, eu também não enxergo muito glamour nisso.

Na real, tem muito um lance de infraestrutura e música. Agazero é música, acima de tudo. Acho que ficar explicando demais o conceito, se atrelando à lore e a essas coisas, acaba confundindo mais as pessoas do que fazendo elas focarem na música. Então é isso: Agazero é uma das personas, e o Eric é o cara ali, o proletário no controle, que banca o projeto artístico.

Quem acompanha seu trabalho sabe que existem vários projetos convivendo ao mesmo tempo. Você já comentou que cada um ocupa um universo diferente. O que o Agazero te permite fazer que nenhum dos outros projetos permite?

Eu acho que explicar essa arqueologia do Agazero, do antigo Void, por exemplo, é uma concessão pedagógica que eu não gosto mais de fazer. Como falei na pergunta anterior, eu percebo muito essa fixação contemporânea por querer tudo jogado na sua cara. Tem que ter uma lore, um manual de instrução. Eu vejo isso como um sintoma do fetiche da mercadoria. Às vezes, o público ocidental quer uma bula pra saber como consumir a parada, e ultimamente eu prefiro só deixar no ar.

Mas o que dá pra falar é que, enquanto os outros seis projetos operam dentro de bolhas mais estritas e delimitadas, o Agazero funciona mais como um nódulo central da minha hiperstição. Acho que ele acaba sendo um vetor dialético pra desorganizar a expectativa do público.

Você escolhe muito bem as pessoas com quem constrói seus projetos. O que faz você sentir que alguém realmente entendeu o universo de um disco?

Na minha visão, a noção de colaboração hoje foi totalmente corrompida por uma lógica de networking corporativo. Pode ser que outras pessoas pensem de outra forma, mas eu acabo me recusando muito a entrar nesse lance de me conectar por conectar, sabe?

Então, pra colar num disco meu, o maior critério passa longe de ser uma métrica de mercado. No final, acho que eu busco mais um alinhamento ideológico e uma cumplicidade de quem está na mesma trincheira que eu. É a pessoa que consegue enxergar a carne e o osso por trás do Eric, e não apenas o projeto Agazero. Acho que, antes de fazer música, precisa existir esse pacto de amizade, esse lance de afinidade política acima de tudo.

O EP reúne artistas de lugares e trajetórias bem diferentes. Como essas colaborações aconteceram? Elas nasceram de amizades da internet, de uma admiração mútua ou cada faixa teve um caminho diferente?

Pô, isso é uma parada que reitera uma recusa quase absoluta a essas convenções artificiais de mercado, sabe? Nenhuma dessas conexões nasceu de uma planilha de relações públicas ou de um bagulho super projetado. A genealogia dessas parcerias é bem material mesmo. Acho que reside muito na vivência corpórea, no que acontece fora do espetáculo artístico e nessa solidariedade de classe.

No EP tem Karan, Iguana, Yandrel e SEXCORP, e toda essa galera compartilha uma mesma condição ontológica e geográfica. São corpos dissidentes operando a partir de territórios deliberadamente marginalizados pelo capital. Nenhum deles é herdeiro ou privilegiado de classe. A gente está falando de pessoas que criam a partir da Zona Leste de São Paulo, da Ilha do Governador, de espaços que a superestrutura tenta empurrar pra uma invisibilidade produtiva.

Eu enxergo neles essa parada do dissidente. Então, acho que o que acaba nos unindo é o que eu classifico como a práxis da classe hacker. A gente é o proletariado digital que habita essa periferia do capitalismo tardio e intercepta o fluxo de informação e estética que o Norte Global despeja na internet, tá ligado?

É isso que a gente faz: sequestra essa referência imperialista e devolve pro mundo totalmente desconfigurada, ao modo brasileiro, ao nosso modo. O bagulho é mastigado e reorganizado dentro de uma perspectiva de autodefesa cultural e sabotagem tecnológica. É uma antropofagia cibernética da periferia brasileira. Acho que é isso.

Agora você está lançando “Dissidente” pela Halcyon Veil, um selo que acompanha há bastante tempo. O que passou pela sua cabeça quando percebeu que esse disco encontraria esse lugar?

Lançar pela Halcyon Veil é um bagulho muito foda. Eu fico num lugar de realização de um sonho do meu eu adolescente. Lá em 2015, por exemplo, a sônica do selo — Rabit, Angel-Ho, Chino Amobi, Why Be, Toxe — mudou muito a minha percepção sobre música.

Mas eu entendo também que, naquela época, existia uma idealização juvenil muito grande. Hoje eu estou mais velho, já tenho mais de uma década nesse rolê underground, então essa mística do jovem emocionado, fanboy, que se projeta num artista europeu ou americano, meio que sumiu.

Isso deu espaço pra outra visão. Hoje eu estou ocupando um catálogo como um igual a eles, tá ligado? Eu não sou um fanboy pensando: “Pô, estou lançando num selo gringo, meu Deus, que foda, vamos glorificar.” Não é isso. Acho que eu acabei absorvendo aquelas fraturas conceituais de dez anos atrás, da época em que conheci o som deles, e processei tudo sob a ótica da minha vivência material: de periferia, de São Gonçalo, de ser brasileiro, de ser carioca. Agora eu estou jogando esse espelho quebrado e distorcido de volta pra eles.

Ouvindo o EP, fiquei com a sensação de que algumas ideias aparecem como memórias. Elas são familiares, mas nunca ficam tempo suficiente para se tornar uma referência óbvia. Você gosta de trabalhar nesse lugar entre o reconhecimento e a dúvida, fazendo o ouvinte sentir que conhece aquilo sem apontar exatamente de onde vem?

Pô, eu acho que a suposição de que existe um cálculo estratégico ou um planejamento deliberado sobre o que a gente vai decodificar no caminho acaba ignorando a própria natureza do meu ato criativo, tá ligado? Até porque, quando eu estou fazendo um som, eu não projeto o afeto ou a nostalgia alheia. Eu não penso muito nisso.

O mercado exige muito do artista contemporâneo uma autoconsciência quase publicitária, em que cada textura precisa ser justificada por um conceito. Tem que ter uma explicação, um contexto histórico. E eu meio que recuso essa burocracia da intenção. Nunca gostei muito desse lugar. Meu processo dentro do FL Studio, do Ableton, independentemente de onde eu esteja mexendo, acaba sendo um exercício de puro automatismo psíquico. 

Acho que é mais um lance de materializar o detrito sonoro que atravessa um corpo exposto a uma hiperestimulação. É até difícil explicar, mas é meio como uma síncope do capital. Minha mente opera muito num estado permanente de fragmentação cognitiva. Acho que existe uma dispersão imposta pela própria velocidade da infraestrutura de São Paulo. Quando eu morava no Rio, não tinha uma cabeça tão acelerada quanto ela ficou depois que vim pra cá.

Então, o que aparece acaba sendo essa colagem involuntária. É tipo um Frankenstein sônico que rejeita a taxonomia de gênero. “O que você faz? Deconstructed club? Avant-garde? Experimental?” Pô, eu realmente não sei, tá ligado? Eu acabo operando por impulso. A maioria dos fragmentos desse EP são fragmentos colonizados, que eu sequestro e reorganizo no espasmo, tá ligado? Então, se o ouvinte encontra um labirinto ali dentro, é ele que vai ter que desvendar. Eu só estava respondendo a um curto-circuito.

A parte visual desse lançamento também envolve pessoas que já trabalham dentro de uma linguagem muito própria. Como foi construir esse diálogo? Em que momento você sentiu que aquelas pessoas entendiam o universo do EP?

Eu acho que a construção visual do EP foi pragmática. Na capa tem a Joy Lee, que é uma modelo que opera naquele circuito estético de Nova York. A fotografia foi feita pelo Luiz F. Cota, e a vivência dele como fotógrafo, como um imigrante mexicano, é um ponto que sintonizou com a ideia de dissidência do disco. Mas, sendo bem sincero, não confiro nenhuma mística ao processo de como isso aconteceu. A imagem acaba sendo mais um ativo utilitário dentro do hacking que eu faço, da forma como opero nessas estruturas. Eu não sento pra romantizar o conceito visual e ficar debatendo muito sobre isso.

Da mesma forma que eu parasitei o orçamento da alta-costura da Mugler durante a Paris Fashion Week, junto com o Bobby Beethoven. Também já infiltrei meu som numa abertura da Comme des Garçons em São Paulo e consegui hackear o espaço do Lollapalooza. Pra mim, é mais um dia normal de trabalho: hackeei mais um espaço e é nós, tamo junto.

Você mora em São Paulo há alguns anos, mas continua carregando muito de São Gonçalo na forma como pensa e cria. O que São Paulo acrescentou ao seu trabalho e o que a cidade nunca conseguiu tirar de você?

Cara, eu acho que São Paulo não acrescentou absolutamente nada ao meu repertório, seja ele estético ou existencial. Acho que o que essa cidade fez foi operar mais como um acelerador pedagógico sobre a barbárie, sobre coisas ruins, sabe? Quando eu me transferi pro coração financeiro da América Latina, encontrei um polo de efervescência cultural, mas também uma espécie de laboratório definitivo do capitalismo tardio na América Latina. 

Acho que aqui as interações humanas foram colonizadas pela lógica de valor e troca. O circuito musical de São Paulo é um reflexo exato dessa distopia meio cyberpunk. Parece que as pessoas só te dão bom dia se puderem extrair algum capital simbólico de você.  Acho que até o afeto aqui foi privatizado. E o alpinismo social ainda é uma linguagem que essa elite cultural compreende. Então, se você não tem uma âncora teórica e material muito sólida, se não entende como a engrenagem da cidade funciona, o bagulho te engole e te joga num vazio existencial que, às vezes, não tem volta.

Vejo muita gente que se muda pra São Paulo e cai numa depressão, num lugar niilista, porque não é fácil. Não é pra qualquer um. E acho que é por isso que São Gonçalo permanece meio inviolável na estrutura da minha vida. São Paulo nunca vai conseguir confiscar a minha ontologia de classe, de onde eu venho, de lembrar que lá o bagulho era doidão. Por ser um lugar mais escasso de grana, São Gonçalo formou uma ética comunitária meio orgânica. Tem aquele princípio que as pessoas chamam de narco conduta, que é esse lance do certo pelo certo, do fundamento.Lá, a sobrevivência tinha muito a ver com um senso de preservação coletiva. Existia uma preocupação com uma amizade mais verdadeira. Isso eu não tenho mais aqui. Em São Paulo, vejo as pessoas operando mais numa lógica de autofagia, numa disputa predatória.

Então eu bato no peito e falo: eu sou cria, tá ligado? Sou cria do Rio. Herdei os fundamentos de lá, de quem sabe o que é o bagulho doido mesmo. São Paulo me deu essa clareza analítica sobre a violência do capital, sobre esse último estágio do capitalismo. E São Gonçalo me deu uma blindagem histórica pra transitar nisso sem me corromper muito. Porque, no final, eu também acabo me corrompendo aqui. Tento ficar isolado o máximo possível, mas nem sempre funciona.

São Paulo é um lugar onde tudo parece acontecer muito rápido e, muitas vezes, através de networking e relações profissionais. Como você tenta preservar relações sinceras e um processo criativo mais íntimo vivendo num lugar que funciona num ritmo tão diferente?

Eu acho que preservo essa integridade criativa continuando um pouco naquele lance da pergunta anterior: ficando enclausurado em casa, sabe? Adoto umas medidas meio radicais de enclausuramento doméstico, um isolamento tático. Estou sempre me isolando. No primeiro ano em que cheguei a São Paulo, eu era muito mais emocionado, mas depois fui entendendo as coisas e acabei me fechando bastante.

Existe um fetiche muito grande aqui de que o artista precisa habitar a noite, habitar os eventos, essas falsas comunidades, para validar a própria existência no meio. Só que, no final, eu não pertenço nem à cultura do meu bairro. Eu não pertenço a muitas das cenas que orbitam esse universo, porque é um rolê muito branco, de classe média privilegiada. É muito diferente do que eu vivia no Rio. Existe um abismo ideológico meio intransponível entre a minha parada e a falsa consciência da maioria dos produtores culturais daqui. Eu não penso como eles, muito por uma questão política. Então, acho que a sobrevivência de qualquer relação sincera depende estritamente de um reconhecimento mútuo da realidade material.

Minha última relação orgânica de amizade na cidade foi com o Baby Moi, que é um rapper preto da Zona Leste, brabíssimo. Eu escutei o som dele e fui atrás dele para fazer essa conexão. Era uma coisa que não acontecia comigo havia muitos anos. A gente se alinhou muito rápido porque compartilha a mesma compreensão sobre subsistência, sobre classe hacker. Somos dois caras pretos, nerds, que gostam de umas coisas conceituais, de arte, de filme cult. A gente é meio uma anomalia nas nossas quebradas: eu em São Gonçalo e ele em São Mateus. Então, quando a gente se encontrou, a parada bateu muito. 

Hoje eu fecho mil vezes mais com quem tem essa ideia política alinhada. Não tenho quase tempo nem interesse para gerenciar esse ego de aristocracia cultural ou desses herdeiros camuflados de vanguarda. Pra mim, networking nada mais é do que uma mercantilização do afeto. Talvez seja até pior do que isso: uma hipocrisia performática das bolhas de privilégio.

Prefiro articular meu trabalho quieto, em casa, eu, meu gato e minha namorada, e conviver com quem está numa correria concreta de sobrevivência, numa pegada parecida com a minha. E isso mesmo que essas pessoas não saibam o que é FL Studio ou nunca tenham ouvido falar de música de vanguarda. Como eu trabalho num meio muito normativo de tecnologia da informação, tenho muitos amigos desse universo. Isso dá um balanço para a minha vida. Muitas vezes, prefiro andar com uma pessoa que não tem nada a ver com música ou arte do que com alguém do meio.

Hoje parece que a internet quer entregar respostas antes mesmo de a gente formular uma pergunta. Como você acha que isso muda a forma como as pessoas descobrem música?

Existe um lance chamado algocracia, tá ligado? O que governa a internet hoje são os algoritmos, e isso oblitera a própria ontologia da descoberta. Hoje, o que o mercado e as plataformas de streaming vendem sob esse rótulo de “descoberta” é, na verdade, um protocolo de predeterminação comportamental. É querer fazer com que o seu gosto musical seja moldado pelo que o algoritmo, a plataforma, o Meta ou o TikTok têm pra oferecer.

Eu acho que o ouvinte contemporâneo não busca. Ele é passivo, alimentado por uma engenharia de recomendação que mapeia, prevê e domestica o desejo. Então, as tendências hoje são muito manufaturadas numa escala industrial. É música, mas tratada como fábrica, como robô. Vários videozinhos de curta duração, algumas coisas validadas por uma crítica musical meio moribunda, e a galera consumindo a narrativa antes mesmo de escutar o som.

O aspecto que eu acho mais perverso dessa dinâmica é a captura da dissidência, esse fetiche do underground. Hoje, muitas vezes, o underground é só uma subversão simulada, uma rebeldia de laboratório, um bagulho já pré-aprovado e colonizado pelos próprios tecnocratas do Vale do Silício. Até aquilo que deveria estar fora do sistema já foi capturado. Então, o que a galera acha que é underground muitas vezes já é uma coisa totalmente projetada e fabricada por quem está no topo. E existe uma contradição muito trágica nisso tudo. A gente dispõe da maior infraestrutura técnica de armazenamento e acesso da história da humanidade. Em teoria, dava pra operar uma arqueologia sonora radical e autônoma. Mas tudo que é maneiro, inovador e que aproveita essa potência tecnológica vai morrendo. Aí toda essa potência se converte numa paralisia cognitiva.

No final, a música virou quase um ruído de fundo pra lubrificar esse isolamento social, tá ligado?

Depois desse lançamento, existe alguma conversa que você gostaria que esse EP provocasse e que talvez ninguém esteja fazendo ainda?

Pô, não. Eu acho que essa ansiedade da nossa sociedade atual, de que toda obra de arte precisa pautar um debate público ou funcionar como um panfletinho pedagógico, é um sintoma muito grande de dirigismo cultural. Hoje o mercado exige que os artistas justifiquem a própria existência. Tudo tem que ter explicação. E, geralmente, essa explicação vem como uma lição de moral já mastigada. Na música, eu recuso esse papel de educador, tá ligado? Quando eu quero operar num campo mais rigoroso de crítica de mídia, crítica cultural ou estudo sociopolítico, de uma forma mais estruturada, eu não uso o som. Eu sento, escrevo, penso num ensaio mais analítico e posto um texto grande no Substack. É ali que esse pensamento discursivo se organiza melhor.

A música habita outra instância ontológica. Então, tratar “Dissidente”como uma plataforma de conscientização já pré-planejada, e chegar numa entrevista falando “eu fiz esse disco pras pessoas colocarem a mão na consciência e pensarem mais em política”, não funciona. Sendo bem sincero, seria de um oportunismo e de uma desonestidade intelectual muito grandes eu fazer isso.

Eu desabei ali um monte de fraturas e leituras que eu tinha da realidade material na época em que fiz o EP. Foi uma época complicada pra mim, uma época mais dark da minha vida. Então, essas tensões já estão na arquitetura das faixas.O objetivo final agora pertence ao mundo, ao vazio. Eu quero que “Dissidente” fique aí no ar e que as pessoas pensem o que quiserem dele. Se um DJ decidir instrumentalizar um som numa pista e fazer a galera dançar em transe, num bagulho meio mecânico, tá perfeito. Se alguém quiser escutar o EP e destrinchar tudo num campo teórico, construir um insight intelectual profundo sobre as texturas, também tá perfeito.

Acho que a emancipação do receptor reside justamente na recusa do produtor em mastigar o sentido da obra, tá ligado? A recepção é caótica mesmo, e tem que ser caótica. Eu já estou ocupado articulando a próxima hackeada, a próxima infiltração. Então, não fico muito pensando no que as pessoas vão debater depois que o EP estiver no ar. Pra mim, isso é irrelevante

Pra terminar, a gente sempre faz uma pergunta por aqui: o que é terapia pra você?

Acho que terapia pra mim é a música, sabe? Até porque, no final, fazer música é o que impede que essa engrenagem de São Paulo triture em mim o que restou de São Gonçalo, da minha origem ali. Sem o som, acho que eu seria só mais um corpo negro invisível, esmagado todos os dias no metrô da Sé. Eu já exerço essa função de ser esse cara comum, trabalhador brasileiro, que pega transporte público, tem problemas financeiros e todas essas questões, tá ligado?

E, se eu não fizesse música, se eu não fizesse arte, eu realmente não sei o que seria.

Film direction and photography: DESACATOPM (@desacatopm)
Video editing: Isabela Talamini (@isabelatalamini)
Interview and text: Victoria Osternack (@v8s8n)
Additional performance footage: Tons Moura (@tonsdefoto)
Editorial direction and production: Isabela Talamini (@isabelatalamini)