
Antes de ser uma marca, Maldito é o nome do personagem do meu mangá homônimo. Quando eu era adolescente, no interior de Minas, toda vez que eu fazia alguma besteira e minha avó descobria ela gritava "malditooo"! E foram tantas que isso ficou guardado em algum lugar da minha memória.
Durante a pandemia, quando escrevi o mangá, o nome me pareceu uma evidência. A história, um conto de horror gótico em forma de mangá, mergulha no meu primeiro amor, atravessado por metáforas das crenças e dos folclores de Mercês, de onde eu venho.
Aos poucos, esse personagem foi se emancipando das páginas e ganhando outras formas, projetos artísticos, colaborações, até se tornar uma marca após o sucesso de uma coleção cápsula para a Lafayette Anticipations, o centro de arte das Galeries Lafayette, em Paris.


Com alma e parte do corpo também no Brasil. Desde a primeira coleção, desenvolvemos peças em colaboração com ateliers brasileiros, criando um fluxo constante entre os dois territórios.
A influência estética acontece como uma ponte. Uma saia godê de chita junina, por exemplo, não é tão distante de uma crinolina do século XVIII lançada por Marie Antoinette. É nesse tipo de paralelo que os mundos começam a se misturar.
A Maldito nasce de uma nostalgia muito específica, o Brasil do fim dos anos 90 e a experiência de crescer queer naquela época. Paradoxalmente, guardo a memória de uma sociedade mais aberta do que a de hoje. Esse contraste me fez revisitar essa cultura pop com um olhar mais crítico e afetivo, sempre em diálogo com a minha vida na França, onde moro há 18 anos.
A nova coleção mergulha em uma brasilidade muito pessoal, de alguém que era uma « gótica suave » que odiava praia, mas cresceu atravessado por referências como Vamp, pelas festas e pelos rituais de adolescência. É uma brasilidade sutil, íntima e emocional.
Total. Eu sempre me interesso por marcas e símbolos que carregam memória afetiva coletiva.
Se pudesse sonhar alto, adoraria revisitar a bala Ice Kiss, criar um sabor Maldito, bem mentolado, como era nos anos 90. Ela tem algo muito único, não é só um doce, é quase uma moeda social. No interior, funciona como troca, como código de aproximação.
Existe toda uma memória sensorial ali, o gosto, o contexto, o primeiro beijo, que é muito potente. E é esse tipo de emoção que me interessa traduzir em colaboração.


KATSEYE e Maldito se encontram justamente nessa ideia de mistura cultural. Esse melting pot faz parte da minha forma de criar.
Foi um processo muito intuitivo e sensível. Cada look foi pensado não só a partir de uma coerência estética, mas também de forma emocional, a partir do que percebi de cada uma delas assistindo à série e aos conteúdos.
O contato aconteceu através do João Moraes, diretor visual do grupo, que também é brasileiro. Isso trouxe uma camada de proximidade e entendimento cultural muito especial para o projeto.
Vestir KATSEYE nesse momento é muito potente, elas representam uma nova leitura de grupo global, mais diversa, mais fluida e mais conectada com o presente.
Muito. O universo Maldito sempre foi pensado como algo expandido, que vai além da roupa.
Eu adoraria trazer as meninas para esse imaginário de alguma forma. Vamos ver como esse momento se desdobra, para então pensar com calma no que pode fazer sentido, talvez até dentro do universo do filme de animação que estamos desenvolvendo.
Estamos atualmente em pré-produção do nosso longa-metragem em stop motion, que é um projeto muito importante para o universo da marca.
E para o Brasil, estamos preparando algo especial para julho, pensado especialmente para esse novo momento de conexão com o público brasileiro.
Ainda não posso revelar muito, mas é um capítulo que fala sobre proximidade, pertencimento e expansão.
