


Eu acho que durante muito tempo eu confundi movimento com direção. Viajar, morar fora… tudo isso parecia muito dinâmico, mas por dentro eu ainda me perguntava: “Onde é que eu pertenço?”. O teatro foi o primeiro lugar em que eu senti chão. E o ponto de virada não foi um trabalho específico. Foi quando eu entendi que lugar não era um território geográfico. Lugar parte do afeto.
Hoje eu sei que posso transformar experiência em pensamento e pensamento em arte. Pode ser no palco, na TV, no streaming ou numa poesia escrita de madrugada, ao mesmo tempo, eu não acredito que a gente pare de buscar. Quando a gente para de buscar, a gente perde algo do caminho. A gente está sempre se reinventando. Essa é a beleza: a gente nunca está pronto.
Morar fora me ensinou que identidade não é algo fixo, é algo que se constrói no contraste. Quando você está longe de casa, você entende melhor o que é seu de verdade.
Mas foi justamente estando fora que eu entendi o quanto o Brasil faz parte da minha forma de sentir. O Brasil é a minha casa. São as minhas raízes, os meus afetos, a minha família, os nossos. É a minha comida, a minha língua, a minha primeira forma de ver o mundo. Meu poetas, minhas canções, minha arte, minha vida. É aqui que o coração sempre ficou mais quentinho.


Eu acredito que todo personagem é, sim, uma forma de investigação. Nessas personagens eu percebi que nenhuma dessas mulheres estava fora de mim. Elas ampliaram zonas que talvez, sozinha, eu não acessasse.
Personagens que transitam entre sombra e afeto exigem coragem. Eles pedem que você olhe para fragilidades, para ambição, para desejo, para contradições sem julgamento. E isso inevitavelmente vira espelho.
A gente gosta de fazer bons personagens, mas quando eles vêm carregados de alguma denúncia social, elas ganham uma dimensão ainda maior. Elas deixam de ser só uma história e passam a tocar numa ferida coletiva.
Eu acredito na potência da arte como expansão. Mas existem histórias que não me cabem contar. Se não compete o meu “lugar de fala”, não serei eu a ocupá-lo.
Eu sou atravessada pelas mulheres da minha vida antes mesmo das personagens. Minha mãe, minha filha, minha avó, as mulheres da minha família moldaram o meu olhar muito antes da arte. A força que eu reconheço nas personagens, eu primeiro reconheci nelas.


Tem tantos textos que me atravessam… poderia citar muitos. Mas o que me vem de imediato, quase por impulso, Cartas a um jovem poeta, de Rilke.
Talvez porque seja um livro que fala sobre atravessar incertezas com maturidade. Sobre confiar no tempo das coisas. Sobre sustentar perguntas sem ansiedade de respostas. Ele fala muito sobre permanecer, sobre não fugir do que é difícil: “Deixe que tudo aconteça a você: beleza e terror. Apenas continue. Nenhum sentimento é definitivo.”
Eu não sei se existe uma linha muito clara entre a atriz e a mulher. Na prática, essa divisão é porosa. A atriz me ajuda a entender a mulher. A mulher dá verdade à artista. Obviamente não estou falando de personagem, mas a atriz e a mulher, elas têm uma simbiose profunda.
Num mundo tão barulhento, o silêncio virou luxo. Está tudo muito acelerado, muito exposto, e parece que a gente nunca desliga de verdade. Mas, para mim, o mais difícil nem é silenciar o mundo, é silenciar de mim mesma. É aquietar a pressa, a expectativa, o impulso de responder tudo o tempo inteiro. Isso é um exercício diário. Principalmente na era da informação que a gente vive hoje, em que estamos sempre atravessados por estímulos. Eu preciso do silêncio para me reorganizar, para voltar para o que é essencial, para não me afastar de mim. Na minha construção artística ele é fundamental, porque antes da palavra existe escuta. E na vida pessoal ele é cuidado.


Meu Deus, que desafio, né? Esse mundo contemporâneo de redes sociais… é uma relação dual. O acesso à informação e a facilidade de se conectar com pessoas distantes são aspectos interessantes que aconteceram nos últimos tempos, aproximaram pessoas, abriram caminhos, criaram oportunidades. Mas, ao mesmo tempo, são ferramentas que se usadas de forma errada, podem despertar a ansiedade.
Tem ainda um outro aspecto social dessa exposição desmedida com notícias sensacionalistas e desconexas da realidade, as chamadas Fake News. Isso é extremamente perigoso.
Ainda estou tentando entender essa relação entre o público e o privado, sabendo que a atriz que habita em mim também precisa de um certo mistério.
O medidor de sucesso é mutável e individual. Para algumas pessoas ele está nas redes, na projeção. Para outras, está na calma, na estabilidade. Para mim, hoje, ele está muito mais ligado a um preenchimento interno. A uma sensação de coerência entre o que eu faço e o que eu sou. Claro que a realização profissional é importante, eu amo o que faço. Mas se ela não vier acompanhada de paz e de presença dentro de casa, ela perde o sentido.
A maternidade não mudou necessariamente os papéis que eu escolhi, mas mudou profundamente a forma como eu os leio. Ser mãe ampliou minha percepção de responsabilidade, de consequência e de complexidade emocional. Eu passei a enxergar as personagens femininas com mais camadas. Nenhuma mulher é só forte ou só frágil. Existe sempre uma negociação interna entre medo, proteção, desejo e limite. A maternidade também me trouxe mais clareza de tempo. Eu escolho melhor onde coloco minha energia. Isso inevitavelmente impacta minhas decisões profissionais.


Realizada.
Eu tenho orgulho da minha trajetória. Eu reconheço o caminho que construí. Mas eu ainda me sinto em movimento. Eu ainda quero mais desafios, mais personagens, mais risco. Tudo o que eu vivi me deixou mais disponível, mais em carne viva para o trabalho. Eu estou no meio da travessia.
Eu acho que o próximo, o próximo desconhecido, ele é um risco. Talvez o maior risco seja continuar me colocando em lugares onde eu ainda não sei exatamente quem eu vou ser.