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Alejandro Claveaux: O corpo como método

Goiano de nascimento, com raízes uruguaias e ascendência francesa e espanhola, Alejandro Claveaux cresceu cercado por misturas. Formado em Engenharia de Alimentos, trabalhou alguns anos na área antes que o teatro cruzasse seu caminho durante a faculdade. A experiência foi decisiva. Trocou a estabilidade da engenharia pela incerteza do palco e, pouco depois, a cidade natal pelo Rio de Janeiro, onde iniciou a vida de ator.

Desde então carrega na fala o mesmo rigor e a mesma curiosidade de quem aprendeu a observar o mundo pela experiência. Há serenidade em seu modo de pensar o ofício. Entre o gesto e a pausa, o que o move é a vontade de compreender o humano em detalhe. “Quanto maior o nível de informação e das vivências, melhor o desempenho e entendimento cênico”, diz.

Essa busca o levou a processos que ultrapassam a superfície da atuação. No meio da conversa ele lembra que já passou dias observando chimpanzés, estudando corpo e comportamento. “Foi uma das experiências mais profundas da minha vida.” A mimesis, técnica que o fez passar horas entre animais para captar gestos e hábitos, se tornou para ele mais que um método, uma forma de escuta. Cada papel, diz, é um organismo que precisa ser compreendido antes de ser interpretado.

Com o tempo Claveaux aprendeu a lidar com os limites da representação. No início acreditava que o mergulho total era a única maneira de alcançar a verdade de um personagem. Hoje prefere a distância que permite observar sem se dissolver. “Não é preciso levar o personagem para casa”, afirma. “Basta saber ouvir o que ele tem a dizer.”

Essa relação entre disciplina e criação atravessa sua trajetória. No palco, no cinema e nas séries, Claveaux trata a atuação como um campo de pesquisa em que corpo e pensamento caminham juntos. Cada experiência se transforma em gesto e cada gesto em conhecimento.

Nesta entrevista à Fort Actress, ele fala sobre método, política e maturidade e reflete sobre o processo de transformar a experiência em arte.

1. Você começou no Teatro Guará de Goiânia, vindo de uma formação em Engenharia de Alimentos. Essa passagem entre dois mundos tão distintos, o técnico e o artístico, ainda atravessa o modo como você pensa o trabalho, a disciplina e a construção dos personagens?

Talvez de alguma forma o olhar mais técnico reflita em algum ponto da atuação, mas eu prefiro pensar que tudo se complementa. Acho que quanto maior o nível de informação e das vivências, melhor o desempenho e o entendimento cênico.

2. Seu processo criativo costuma partir de um mergulho profundo no universo dos personagens, com muita pesquisa, observação e referências que vão do cinema às artes visuais. Quando se prepara para um papel, seja no teatro, no streaming ou na televisão, como se dá esse mergulho? Há um percurso de pesquisa que te leva até esse lugar ou você prefere que o personagem vá se revelando aos poucos, na prática e na experiência?

Isso depende muito da plataforma em que o projeto é desenvolvido. Na televisão, por exemplo, o processo é mais dinâmico. O personagem vai sendo revelado aos poucos e pode sofrer interferências externas do público ao longo da trama. Já no teatro e no cinema o tempo de preparação é maior. São meses de ensaio e pesquisa, e as chances de o personagem mudar durante o processo são menores.

3. Você costuma citar a palhaçaria e a dança como dimensões importantes do seu processo. Elas entram como exercício técnico ou como modos de abrir o corpo e acessar emoções que, de outro modo, talvez não surgissem? Como foi se apropriar dessas práticas para o seu desenvolvimento como ator?

Existem muitas técnicas para acessar o que o personagem pede. Uma das minhas pesquisas mais intensas foi com a mimesis. Passei dias em jaulas com chimpanzés, comendo como eles, tentando me comunicar, observando o corpo. Essa experiência me rendeu um teste para participar da peça Clandestinos, de João Falcão. Em uma das cenas eu me transformava em um macaco, com todos os hábitos que captei. Foi muito interessante e transformador.

4. Ao longo da carreira você passou por projetos muito diferentes entre si. De que forma cada trabalho te transformou como artista? Existe algo que você sente que se repete na sua atuação, uma espécie de assinatura, ou algo que você percebeu que precisou abandonar com o tempo?

Procuro sempre diversificar os personagens, tanto na caracterização quanto no modo de andar e falar. Nesse processo existe a minha própria persona, que empresta o corpo para tudo isso acontecer. É natural que alguns traços meus fiquem impressos nos personagens. Cada ator faria o mesmo papel de uma maneira diferente, justamente por causa disso.

5. Em diversas entrevistas você comentou sobre a importância de papéis que tratam de identidade e sexualidade. Como você enxerga hoje o papel da arte na ampliação e na naturalização de temas que ainda enfrentam resistência? Em Rensga Hits, por exemplo, o Deivid Cafajeste traz essas questões de forma sensível e popular. O que significou para você viver um personagem que tensiona o universo masculino da música sertaneja?

É exatamente esse tipo de personagem que eu gosto de fazer, o que desafia e faz pensar. O ator é um ser político por essência. Além de promover entretenimento, ele também promove discussão. No caso do Deivid, o tema passa pela sexualidade reprimida e pelo medo de assumir quem se é. Achei muito importante falar sobre isso, porque atravessa também as minhas próprias escolhas de vida.

6. Seu novo trabalho, Ruas da Glória, dirigido por Felipe Sholl, te
coloca como Adriano, um garoto de programa uruguaio que vive uma relação de afeto e violência com um antropólogo recifense nas ruas do Rio. Como foi o convite e o processo de aceitação para esse papel? O que mais te desafiou nessa história que mistura suas origens uruguaias com as paisagens da cidade?

O personagem inicialmente era argentino, mas como eu tenho nacionalidade uruguaia ele acabou ficando com essa referência. Quando soube que os testes estavam acontecendo, pedi para participar, mesmo sabendo que o papel era para alguém mais jovem. Fiz alguns testes até o diretor dizer que eu tinha o ponto certo do que ele queria. A partir daí comecei minha pesquisa e me joguei.

7. Nesse personagem há uma sobreposição de experiências, o corpo latino, a marginalidade, o desejo. Como você equilibra a entrega emocional e a distância necessária para não se perder dentro do personagem?

Quando era mais jovem, achava que mergulhar completamente era o caminho certo. Hoje entendo que uma boa pesquisa e algumas técnicas bastam para sustentar o personagem sem levá-lo para casa. Não é preciso se perder no processo para chegar à verdade.

8. Depois de papéis tão diferentes e intensos, você sente que algo permanece em você após as gravações ou existe um momento em que precisa se despedir do personagem?

Não acho que vale a pena trazer o personagem para a vida privada. O que fica são as memórias afetivas e os momentos de criação.

9. Pensando no futuro, você tem vontade de voltar ao teatro ou pretende seguir explorando o cinema e a televisão? Há interesse em direção ou roteiro ou o foco segue sendo a atuação?

Tenho um projeto com a atriz Malu Gali para uma peça no próximo ano. Também penso em direção e roteiro, que estão sempre no meu horizonte. Sou uma mente inquieta e gosto de experimentar. Durante a pandemia produzi um longa em coletivo com amigos, Bocaina. Foi uma experiência ótima e me despertou vontade de continuar criando dessa forma.

Fotography: Pedro Pedreira 
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