
Eu comecei a fazer teatro com 11 anos, na Companhia Nômade, uma escola de drama. Lembro que tudo que envolvia cultura e arte na cidade – desde apresentações em praça pública, desfiles, concursos – sempre tinha o nome da Companhia Nômade. Eu tinha muita vontade de fazer parte daquilo, mesmo sem entender exatamente o que era. Só sabia que queria estar junto, envolvida de alguma forma.
Na minha escola, alguns integrantes da companhia também estudavam lá e eu achava eles muito legais e interessantes. Ficava na fila pra tentar uma vaga no curso e lembro da sensação maravilhosa quando consegui me matricular.
Tudo começou ali: minha comunicação, o trabalho em grupo, o contato com literatura – Shakespeare, Nelson Rodrigues, Plínio Marcos. Eu guardo memórias lindas dessa época. Acho que o momento decisivo foi a apresentação de fim de ano. Fiz uma figuração, com uma falinha só, mas pra mim, aquilo já foi o suficiente pra entender que era isso que eu queria fazer da vida.


Foi durante as preparações de Rensga! que tudo começou. A Débora Secco foi até minha casa, conversamos sobre o projeto e ela me pediu para ler o texto com ela, especialmente por causa do sotaque — já que morei muitos anos em Goiânia, e ainda mantenho minha casa lá. No meio da conversa, ela me disse: "Você tem que participar desse projeto, ele é a sua cara!"
Ela me apresentou à produtora e ao Globoplay, junto com o Alejandro Claveaux, e logo depois eles me trouxeram a ideia da Paloma: uma apresentadora goiana, com quem me identifiquei imediatamente, principalmente por causa do começo da trajetória dela, tão parecido com o meu.
Foi tudo muito rápido. Quando recebi a proposta, as gravações já tinham começado, então não houve um processo profundo de preparação como estou vivendo, por exemplo, com o filme Minha Querida Alice. A Paloma chegou como uma participação, com apenas uma cena. Mas a reação do público foi tão positivaque acabei voltando para o Rio, gravando mais, e depois retornando para Goiânia para continuar. A personagem foi crescendo, e com isso veio minha participação nas segunda e terceira temporadas.
A Paloma foi, sem dúvidas, um presente na minha vida. Ela chegou de forma despretensiosa, e a gente sempre brinca que, às vezes, é o personagem que escolhe o ator. E eu sinto que foi isso: a Paloma me escolheu naquele momento, e fomos crescendo juntas. Foi minha primeira experiência em série — ela foi ganhando vida e espaço na narrativa, de maneira muito intuitiva e espontânea. E me trouxe muita sorte.
A construção da Jéssica foi bem diferente. Isso porque, além de ser uma personagem muito distante de mim, tentei buscar pontos de identificação com ela — e defendi essa personagem até onde pude —, mas foi um processo desafiador. Foram dez meses imersos na Jéssica, contando a história dela por meio da minha vida, dando corpo, voz e verdade a ela.
Tivemos uma preparação intensa, iniciada meses antes. E, por ser uma novela, uma obra viva, a dinâmica é diferente: não conseguimos construir o arco da personagem com tanta antecedência, já que vamos descobrindo sua trajetória junto com o público. Sabíamos traços essenciais da Jéssica e como ela começava, mas o final ainda era uma incógnita. No início, por exemplo, ela sairia no capítulo 100, mas acabou permanecendo até o último episódio, com uma grande virada na reta final.
Me entreguei por completo à construção da Jéssica. Fazer novela é muito diferente de cinema ou série — exige uma dedicação diária, um mergulho constante naquele universo. E, no caso da Jéssica, era um universo duro, maldoso, o que me exigiu ainda mais para compreender essas nuances, construir o arco e saber o momento certo de entrar e sair da personagem. Foi um desafio enorme, especialmente por voltar, todos os dias, à minha vida pessoal, que é tão distante da realidade dela.


No filme Minha Querida Alice, que já estamos preparando com a Helena Varvaki, as filmagens começaram agora e vão até junho. É um projeto muito especial para mim, porque venho nele como produtora e protagonista. Produzo ao lado do Samuel Machado e interpreto a Alice, uma mulher do interior, professora, que foi adotada por uma família onde recebe muito amor do pai, mas enfrenta rejeição e conflitos profundos com a mãe e os irmãos.
Esses conflitos moldam intensamente a vida da Alice — e também a trama do filme. Ela é autora de um livro, e a narrativa se constrói a partir dessa obra que ela mesma escreve. É uma história potente, com temas muito importantes, que precisa ser contada com seriedade e sensibilidade. Estamos construindo um filme lindo, em todos os sentidos: da entrega do elenco à direção, tudo está sendo feito com muita delicadeza para honrar a profundidade que essa história exige. A previsão de estreia é para, no máximo, o começo do ano que vem — e acredito que vai emocionar muita gente.
A preparação de Minha Querida Alice, com a Helena, tem sido uma experiência completamente diferente de tudo o que já vivi em outros trabalhos. É um mergulho profundo, muito íntimo. Essa personagem me convida a olhar para as minhas próprias dores enquanto mulher, e isso traz uma responsabilidade enorme — pelo que ela representa e pelo impacto que pode ter em tantas outras mulheres. Alice é uma personagem silenciada pela vida. Ela não grita suas dores, não externaliza com facilidade, e isso exige um trabalho extremamente minucioso. A preparação tem sido profunda, delicada, cheia de nuances — e está mexendo comigo de um jeito muito real. Acredito que também vai tocar outras mulheres, porque o filme levanta temas muito importantes, que precisam ser falados.
Não tenho um papel específico em mente, mas cresci assistindo mulheres incríveis fazendo personagens marcantes. Desde a Tieta, até a Sônia Braga em A Dama do Lotação ou personagens do Nelson Rodrigues. São muitas possibilidades que me encantam.
Tenho muita vontade de fazer uma comédia romântica, leve, quase óbvia. Acho que seria divertido de fazer e que o público também gostaria de me ver nesse lugar.


A cena mais difícil foi o embate final entre a Jéssica e a Electra (Juliana Paiva) na novela. Foi uma sequência com cerca de onze cenas seguidas, com embate físico e emocional. A gente se batia mesmo, e ainda havia um grande desabafo envolvido. Tínhamos pouquíssimo tempo para gravar tudo, foram cerca de seis horas intensas.
Mas, graças à sintonia que eu e a Ju Paiva construímos, conseguimos entregar um bom trabalho. Fiquei muito feliz com o resultado, mas foi desafiador.
Nossa, muitas! Tônia Carrero, Marília Pêra, Fernanda Montenegro, Adriana Esteves – principalmente no início da carreira dela, que me inspira muito. Também admiro a trajetória da Sônia Braga, da Renata Sorrah, que tem tanto para ensinar para nós, atrizes que estão começando agora.
Para criar uma personagem específica, a gente bebe de muitas fontes baseadas nas personagens. Mas para a vida, para a carreira, essas mulheres são grandes referências.


Minhas maiores motivações para seguir no meu propósito de carreira vêm de quando eu ainda era muito nova, lá no interior, sonhando com tudo isso. Pode parecer utópico pensar em fazer uma novela, estar no cinema, viver e colher tudo que conquistei até aqui — principalmente porque, na minha região, eu não tinha muitas referências de mulheres que conseguiram chegar tão longe na área da comunicação como eu cheguei.
Pra mim, o que sustenta essa caminhada — seja como atriz, comunicadora, apresentadora, influenciadora, ou em qualquer outra área — é escolher ser disruptiva na nossa própria história. E isso exige o básico, que pode até parecer clichê, mas é essencial: disciplina, dedicação e fazer o certo, mesmo quando ninguém está vendo. Porque a gente realmente colhe aquilo que planta lá no começo.
E numa carreira como essa, que envolve tanta exposição, é ainda mais importante ter um cuidado especial com tudo o que a gente entrega: cada linha, cada parágrafo, cada projeto. Fazer com humildade, transparência, e respeito — pelo trabalho, pelo outro, e por nós mesmas — é fundamental.
Um ponto que sempre reforço é: respeite sua própria trajetória. Ela é única. Se eu tivesse tentado seguir exatamente os caminhos que já existiam, talvez eu nem tivesse começado pela internet. Mas essa foi a minha escolha, e talvez eu tenha sido uma das primeiras a ir do digital direto para o cinema, para a novela, para a televisão. Fiz um caminho inverso — e isso teve um preço alto. As pessoas muitas vezes não entendem, julgam... Mas tá tudo bem. Ninguém precisa entender tudo. O
importante é fazer o que você ama, com verdade e respeito.
Com o tempo, as pessoas vão percebendo que você leva isso a sério. Então escreva sua história da forma mais bonita, intensa e verdadeira que puder. Curta cada fase, porque todas elas são importantes para o crescimento — e, sim, também podem ser muito gostosas.

